Diariamente repetimos nossas vocações e especialidades a todos que nos conhecem. Somos definidos e nos definimos pela nossa atuação: pelo que já fizemos e pelo que fazemos. Para isso, recorremos frequentemente aos números, que ajudam a ilustrar, na imaginação do outro, a grandeza e a relevância da nossa vida profissional. A métrica do sucesso passa, quase sempre, por informações quantitativas. Quanto maior o número, maior o prestígio atribuído.
Já não somos apenas aquilo que pensamos, mas também aquilo que realizamos e aos projetos futuros que ainda estão por vir. A apresentação profissional, muitas vezes, se constrói a partir de dados numéricos. Mesmo sabendo que não nos resumimos a casas decimais, elas costumam ser as primeiras a surgir como estratégia de convencimento. Quando fazemos essa simbiose ‘info numérica’, acreditamos nos apresentar com maior relevância. Possuir números passa a significar possuir prestígio.
Na arquitetura, essa medida se materializa no que construímos e no que ainda sairá do papel. Obras, cursos, palestras, prêmios, experiências acumuladas : tudo conta. Escrever este texto também conta. Em algum momento, ele poderá integrar a leitura biográfica que alguém fará ao me apresentar em coisas dessa natureza.
Em nosso meio, quanto maior e mais extenso o numeral, maior a autoridade que ele parece conferir. Pensar que um arquiteto inicia sua produção sem essa autoridade — sem o número — é colocá-lo numa margem lamacenta, onde cada passo exige esforço para sair do terreno úmido e desconhecido rumo a uma terra firme e farta. Farta e falta, no vocabulário interiorano, são palavras opostas que por vezes se confundem na pronúncia, e isso guarda uma ironia interessante. A abundância, a busca pelo excesso — pelos números — nunca parece suficiente. Sempre há espaço para mais. E, estranhamente, ao final, quase sempre falta. Falta, via de regra, o básico bem feito.
Retomando o título, a autoridade hoje se resume a números conquistados em diversas esferas, físicas e digitais: dinheiro, bens, seguidores, curtidas, obras construídas, metros quadrados, projetos realizados, prêmios recebidos. A lista é extensa. Por isso, talvez não seja equivocado afirmar que, no mundo contemporâneo, a educação passou a residir na autoridade — e, sendo assim, educa quem detém maior poder numérico. Também não parece errado dizer que é essa autoridade que concede o selo de “originalidade”.
Atualmente, a internet assume um papel central como agente educador — e deseducador —, além de mediadora entre autoridade e autoria. Ela se tornou o cartão-postal de cada indivíduo, onde se misturam CPF e CNPJ. Um cartão-postal ilustrado por incontáveis imagens, enviado a cada minuto a uma lista infinita de destinatários. A internet ensina na mesma força que engana. Forma especialistas numéricos que se tornam autoridades e passam a doutrinar a partir dos números. Aproxima e afasta, com igual intensidade, pessoas e assuntos. E trouxe para a esfera digital um diálogo comprimido, muitas vezes reduzido a um único vídeo ou uma sequência de imagens.
Nesse cenário, os profissionais que apostam na qualidade do trabalho antes da visibilidade, enfrentam um caminho ainda mais instável. Ao recusarem o jogo da exposição frequente e da produção incessante de conteúdo, veem sua autoridade colocada em dúvida. Se não aparecem, se não produzem com frequência e eficácia, talvez nem mesmo qualidade lhes seja atribuída.
É um tema que carrego a um tempo, e diariamente faz parte do meu imaginário, portanto, não escrevo a partir da certeza de que o estúdio ocupe hoje um lugar de prestígio consolidado, embora reconheço sinais de que o trabalho vem, aos poucos se afirmando. O que atravessa minha prática de forma constante é a dualidade entre aquilo que demanda tempo, critério e reflexão para se firmar e aquilo que o mundo contemporâneo reconhece como autoridade. Produzo nesse intervalo: entre o desejo de aprofundar o pensamento e a necessidade — nem sempre confortável — de responder a métricas que validem a prática. Não se trata de negar esse jogo, mas de compreendê-lo criticamente, sabendo que, muitas vezes, o valor do trabalho antecede qualquer número capaz de legitimá‑lo.
Se educar é também formar critérios. Talvez o desafio do arquiteto hoje seja resistir à lógica dos números e recuperar o valor do pensamento — mesmo quando ele não é facilmente mensurável.