INTRODUÇÃO
No início de fevereiro de 2020, a pandemia do coronavírus (Covid-19) teve início no Brasil, após a confirmação do primeiro caso registrado em território nacional. Um mês depois, o Ministério da Saúde declarou estado de transmissão comunitária e, desde então, foram mais de 700.000 óbitos acumulados e milhões de casos confirmados por todo território nacional.
Pensar um Memorial para uma tragédia viral que assolou a todos e fez tantas vítimas fatais, é revisitar um passado próximo que aborda como questão a vida e suas incertezas, memórias com cicatrizes e feridas abertas em um tempo de escuridão. Sugerir um memorial para essa data é entender o tempo como meio de transformação a partir da sua introdução na arquitetura.
ARQUITETURA
A concepção de um memorial dedicado às vítimas do Coronavírus, e sobretudo, à resiliência e reconhecimento dos profissionais da área da saúde e do Sistema Único de Saúde, trata sobre a passagem do tempo e a dimensão do espaço, de modo que este memorial se torna visível e palpável por meio da relação entre arquitetura e natureza. E é essa a direção pela qual o projeto caminha.
Nesse sentido, propomos que o Memorial da Fiocruz sobre a Covid-19 seja um espaço de pertencimento através da simbiose entre arquitetura e natureza existente, mediante a comunhão entre matéria e vegetal. Um espaço de relações entre si, que conduz os visitantes a explorar o local sob múltiplas perspectivas, vivenciando a complexidade do momento de modo distinto.  Este lugar é um convite ao confronto pessoal, um lembrete de que, embora não controlemos todos os aspectos de nossa existência, sempre existem caminhos a serem descobertos.  O memorial é um ecossistema construído.
Da entrada, sentido ingresso ao Campus Matosinho à esquerda, se vê um conjunto de muros (ou elementos verticais) de alturas variáveis que bloqueia quase que inteiramente a visão do espaço para a praça interior e a mata existente. A austeridade dos elementos verticais representa a existência e o recomeço. São as paredes da nossa casa, ora nos separam, ora nos unem. São as cicatrizes internas e silenciosas em todos nós. Sua irregularidade é a ilustração genuína da dor e do luto, da força e do renascimento. Marcas de um passado singular.
O conjunto de sete paredes entrelaçado com a vegetação nova e existente, concebe - em contraste visual e de matéria - a potencialidade de ressignificação do peso de um período desconhecido e indefinido, e fornece novas compreensões do espaço e tempo entre o passado, presente e futuro.
À medida que o usuário adentra ao Memorial, novas perspectivas são geradas por meio do desenho do piso que contorna toda a vegetação presente na antiga praça. Tal chão por onde se atravessa atua como proteção para o que já estava lá. Em concordância, os muros nascem a partir desse desenho e em uma relação incerta entre harmonia e conflito se cravam no território. O vinculo que se estabelece entre as partes - vegetação, piso, muros, nova vegetação – e caracteriza a criação de novos lugares, ora cheio, ora vazio, é a evolução e condição de um tempo desconhecido que se instituiu. O memorial é a representação de um intervalo de um tempo que já é passado, e a conquista de novos caminhos no espaço e tempo futuro, mapeado pela arquitetura e natureza que se fundem para criar um testemunho permanente.
PAISAGEM
O memorial nasce da simbiose entre arquitetura e natureza, onde o natural e o construído se entrelaçam em meio, de modo que aos poucos o vegetal se aproprie da matéria. A proposta é dividida ações e deve seguir obrigatoriamente as diretrizes de projeto, considerando adequada execução de impermeabilização quando necessária, iluminação, drenagem e irrigação.
Na primeira ação, a propomos uma proteção da camada existente na vegetação arbórea a partir de um desenho de piso que as contorna, garantindo a preservação e minimizando ao máximo a supressão vegetal. Na segunda ação, sugerimos a adição de uma vegetação tropical em toda área de jardim perimetral ao Memorial, que acompanha as espécies existentes. Por fim, na terceira ação, a intenção faz o desenho. Queremos um pulmão para o Memorial. Assim, toda vegetação herbácea suprimida dos canteiros será realocada e também adicionada a novas espécies a um jardim central. Esse jardim, tem características de uma vegetação rasteira e de pequeno porte, uma mini floresta herbácea de aproximadamente 420m², abundante em sua diversidade cores, formatos e cheiros.
MATERIALIDADE E TÉCNICA CONSTRUTIVA
O memorial deve atingir a todos, da concepção, construção a ocupação. O sistema construtivo adotado para as paredes é a alvenaria, presente em mais de 85% em todo território nacional. A opção escolhida carrega a pluralidade popular na sua execução e estabelece um dialeto visual de identificação com o usuário. São muros de fiada dupla de tijolo cerâmico estrutural tipo 14x19x39, proporcionando melhor desempenho acústico.
Para a superfície, adotados um acabamento irregular e singular, desenvolvido in loco com desempenadeira dentada ou outra ferramenta especifica em conjunto com a equipe da Fiocruz e demais envolvidos. Acreditamos no desenvolvimento colaborativo e investigativo do canteiro de obras.​​​​​​​