"Por que as fundações de pedra que descobrimos num campo de mato crescido, um celeiro desabado ou um hangar abandonado despertam nossa imaginação, enquanto as casas em que moramos parecem sufocar e reprimir nossos devaneios? As construções de nosso tempo talvez despertem curiosidade pela ousadia e criatividade, mas dificilmente provocam uma percepção do significado do mundo ou de nossa própria existência."
Juhani Pallasmaa, A geometria do sentimento: um olhar sobre a fenomenologia da arquitetura, 1986
Viver entre cordilheiras é viver de extremos que passam por clima e geografia, por paisagens naturais únicas e culturas ancestrais. A soma de todos esses fatores indica a complexidade da terra e das crenças, desafiando o que é real e o que é ficção.
A vida individual passa a ser parte de um ecossistema que só é possível com a intervenção humana. A necessidade de um abrigo como refúgio para a sobrevivência e proteção contra altas e baixas temperaturas, acompanhadas de ventos tão fortes que os pássaros mal conseguem voar contra a força, e assobios que ao mesmo tempo podem levar qualquer parte do corpo exposta a um nível que beira a sensação de congelamento, tornou-se uma verdade que aprendemos e desejamos desde pequenos: a casa.
Calcário, cinzas vulcânicas, argila e sais minerais se espalham pelos ventos por todo o território entre cordilheiras, cobrindo a seco tudo e todos com suas memórias.
A paisagem externa é multifacetada, tem profundidade, “colores”, cheiros, e muda a cada ponto de vista. Vermelhos, dourados, cinzas, marrons, verdes, branco, azul, verde e nuances incontáveis. Também se altera ao olhar individual e a cada estação do ano. É imponente, robusta e, mesmo se apresentando como uma linha, tem espessura.
Em alguns casos, se completa com vilarejos, construções inacabadas ou já abandonadas e indústrias voltadas para a exploração de recursos. São pequenas diante das imensidões “lineares” que as contornam.
Visitar essa paisagem é um convite ao inesperado, é entender que o tempo desenha tudo que está à volta, ao mesmo tempo em que é vulnerável e pode sofrer alterações por meio de outras condições. Mais do que isso, também mostra que o tempo é uma condição ou ferramenta necessária.
A paisagem é linear em dois momentos: 1. ao atravessamento; 2. parado diante dela mesma – mas não tem nada de linear em seu formato e força. Parece oscilar, assim como a vida, entre baixos e altos. A paisagem parece reconhecer essas mutações e, em conjunto com toda a vida que a cerca, entrega o papel de casa de forma sobrenatural e silenciosa.
A paisagem não grita, respeita o vazio e, ainda assim, afirma se como uma arquitetura natural indispensável ao exercício de tudo que ela preenche, para todos que a ocupam.
Talvez assim deveriam ser nossas casas: silenciosas, mas ocupadas com incertezas e com um convite aos descobrimentos espaciais e ocupações triviais diárias.